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Brasil Reflexão

A COMUNIDADE DE ESTRANHOS: O ESVAZIAMENTO DA MEMÓRIA COLETIVA

Por Thiago Carcará

27/06/2021 10h03
Por: Thiago Carcará
A COMUNIDADE DE ESTRANHOS: O ESVAZIAMENTO DA MEMÓRIA COLETIVA

              Rodeados todos os dias por milhares de estranhos, percorremos o cotidiano saltitando entre os olhares à busca de uma lembrança facial que nos permita uma maior interação além das urbanidades do dia a dia que muitas vezes nem todos possuem, como uma saudação de bom dia. Entregues à rotina que escolhemos, deixamos passar desapercebida a vivência social de que estamos inseridos em uma comunidade, cortejando sempre com o individualismo e o narcisismo inflados através de novas esferas da ordem pública que se resumem a virtualidades superficiais.

 

              Ao passo que nos entregamos a esses novos fatos sociais, de maneira disruptiva perdemos a essência dos encontros casuais e das vivências coletivas, hoje aceleradas pelo momento pandêmico, face a tendência de os relacionamentos sociais entre estranhos já ter-se encaminhado para própria superficialidade. Na fenomenologia do espírito, o conhecimento ontológico dos objetos, permiti conhecer melhor a sua essência. Ao nos debruçarmos sobre o que importa nos relacionamentos em comunidade, devemos refletir sobre o seu propósito, que é instituir uma rede de indivíduos que possuem elementos comuns, em especial conviver em um mesmo espaço e durante a mesma época, isso é requisito para a comunidade, por óbvio.

 

              O olhar desatento, que tende a refletir apenas para si mesmo, deve transpor a movimentos empáticos, de refletir sobre o outro, além de garantir a observância dos deveres morais que nos circundam e que deixamos liquefazer pelo fato de não serem regras positivadas. Virtudes morais que constroem a vida cotidiana são parte da essência dos relacionamentos, como serenidade, gratidão, compaixão, ternura, entre outros. Ao deixarmos que o fluxo social narcisista e individualista siga seu percurso, é clara a mudança estrutural da percepção do senso de comunidade e deterioração das virtudes, que passam a ser uma concepção teórica e não mais uma realidade.

             

Na prática, nos isolamos entre muros, em prédios, em condomínios fechados, ou até mesmo em smartphones e seus algoritmos sociais, em um mundo que buscamos, talvez, reconstruir uma nova concepção de comunidade que outrora traduzia-se em um elo real de relações sociais com essência e sentido, entre a vida cotidiana cercada de olhares receptivos a atentos a materialidade dos espaços materiais, concretos, como praças, teatros, museus, universidades, entre outros. O olhar estranho, o conviver com o estranho, é nada mais do que um simples momento desprovido de qualquer externalidade ou pretensão, se esgotando na singularidade do tempo, sem qualquer sentido de comunidade ou de construção social, apenas com o vil propósito de atendimento de interesses temporais, terrenos e sem afeição humana.

 

Esse processo de desconstrução da comunidade, repito, acelerado pela pandemia, repercute também no esvaziamento das memórias coletivas à medida que não cria elos afetivos e sociais com os ambientes de convivência, que possuem carga simbólica inferida no tempo e no espaço. O olhar cotidiano sobre os ambientes que nos remetiam a passagens marcantes de nossas vidas, começa a reduzir diante das inúmeras individualidades que se sobrepõe ao interesse coletivo, e redundam em trocas capitais desprovidas de virtudes ou essência, meras superficialidades.

 

A percepção de que isto ainda não aconteceu, representa claramente a ausência do sentimento de comunidade, o olhar individualista e narcisista, e a constatação de que estamos inseridos nesse processo, permite-nos a inquietação reflexiva necessária para buscarmos não mudar, mas apenas termos ciência de que estamos inseridos nesse processo e, quem sabe, possamos instruir melhor essa nova concepção de comunidade.

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